A cidade não dorme —
apenas baixa a voz.
As luzes dos postes
desenham sombras compridas
nas ruas que de dia
pertencem a toda a gente.
Agora são só delas.
Um cão atravessa a estrada
sem olhar para os lados.
Sabe que a esta hora
a rua lhe pertence.
Não por direito —
por ausência de contestação.
A Beira às três da manhã
é a cidade sem máscara:
o cheiro do Índico
mistura-se com o silêncio,
as conversas são mais honestas,
os sorrisos mais raros
mas mais verdadeiros.
Há uma liberdade específica
nesta hora.
A sensação de existir
num parêntese
entre o que foi
e o que vai ser.
Sem obrigação
de nenhum dos dois.
Fico aqui um momento
a ouvir o mar ao longe
antes de voltar
para dentro.
Deixo a Beira
ser ela mesma
enquanto eu
sou apenas alguém
que passou.
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