Há coisas que eu sinto
e que não pedem licença.
Entram, ficam,
mexem no que eu ainda estava a tentar manter inteiro.
Não sei fingir leveza
quando algo me atravessa de verdade.
Aprendi cedo demais
que o que não se diz
cresce no corpo.
Eu fico quando deveria ir,
e vou quando já fiquei demais.
Não por confusão,
mas porque algumas presenças
ativam partes minhas
que eu não controlo com cuidado.
Não te escrevo para ser lido.
Escrevo porque ignorar
sempre me custou mais caro
do que assumir o risco.
Existe química —
e existe o perigo de chamar de acaso
o que insiste em voltar.
Nem tudo o que vibra quer ficar,
mas há coisas que não pedem permissão
para permanecer.
Eu sei reconhecer limites.
Mas também sei quando estou a usá-los
como desculpa elegante
para não admitir desejo.
Se fico em silêncio,
não é por falta de sentir.
É por medo de nomear
e mudar tudo o que ainda se sustenta.
Algumas portas não se abrem sozinhas.
Algumas verdades,
uma vez ditas,
não aceitam devolução.
E eu sei disso.
Por isso escrevo.
Porque há coisas que não querem paz —
querem coragem.
Há textos que nascem de um instante concreto, mas sobrevivem porque deixam de pertencer apenas a esse instante.
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