Cresci entre duas línguas
e às vezes sinto
que não pertenço completamente
a nenhuma das duas.
O português é a roupa formal —
ficou bem, aprendi a usá-la.
Mas a língua da avó
é a pele.
Essa não se aprende —
lembra-se.
Há palavras em cisena
que o português não traduz.
Não porque sejam intraduzíveis —
é que traduzir
faria perder
exactamente o que importa.
O peso específico.
O tom.
Às vezes pergunto-me
quem seria
se tivesse crescido
apenas numa língua,
apenas num mundo.
Mas a pergunta desfaz-se
antes de ter resposta —
sou precisamente
este espaço entre.
Esta ponte sem nome
que vai dos dois lados
ao mesmo tempo.
As raízes não escolhem
para onde crescer.
Crescem onde têm espaço
e onde há água.
Eu cresci aqui.
E aprendi a chamar isso de casa.
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