Cresci num bairro da Beira, entre Nhamudima e Xipangara, onde as casas se encostavam umas às outras como pessoas num chapa lotado — por necessidade, mas também por costume. A vizinha do lado sabia o que havia para almoço antes da minha mãe terminar de cozinhar. O cheiro viajava livre porque as paredes não eram impedimento suficiente para a vida.
Era um mundo onde as crianças pertenciam a todos os adultos. Qualquer vizinho tinha autoridade para repreender, orientar ou abraçar. Era sufocante às vezes. Era também uma rede de segurança que só aprendemos a valorizar quando deixamos de a ter.
Saí desse bairro, estudei, mudei de endereço mais de uma vez. Mas o bairro não saiu de mim. Está na forma como cumprimento os vizinhos — com genuína curiosidade pelo que se passa na vida deles. Está no desconforto que sinto nos espaços onde as pessoas passam umas pelas outras sem se ver.
Em cisena existe um modo de olhar para a comunidade que nunca precisou de grandes explicações: uma pessoa torna-se verdadeiramente pessoa através das outras. O individualismo que a modernidade vende como liberdade parece-me, às vezes, apenas uma forma mais elegante de solidão.
O bairro ensinou-me o que nenhuma escola depois conseguiu desfazer: que existir em relação com os outros não é fraqueza. É a única forma de existir que dura.
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