Existe um paradoxo no discurso sobre transformação digital em África: enquanto celebramos a penetração do smartphone e o crescimento do mobile money, ignoramos sistematicamente que os benefícios da revolução digital estão a agravar as desigualdades existentes, não a reduzi-las.
Em Moçambique, quem mais beneficia da economia digital é quem já tinha vantagens: jovens urbanos educados com acesso a internet estável, competências digitais e redes de contacto. As populações rurais, as mulheres com menor escolaridade, os trabalhadores informais sem smartphone — estes continuam excluídos ou explorados pela mesma revolução que deveria incluí-los.
O digital divide não é apenas uma questão de acesso a dispositivos ou conectividade. É uma questão de competências, de confiança, de conteúdos relevantes, de serviços desenhados para realidades específicas. Enquanto a narrativa oficial celebra métricas de penetração sem questionar quem fica de fora, estamos a construir uma economia digital que replica e amplifica as desigualdades que prometeu superar.
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